segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Encontros e Desencontros

Desde o surgimento do universo, para tudo tem-se um começo. Desde assuntos jurássicos a assuntos contemporâneos. Para tudo nessa vida, sendo direto. Na música, ainda mais no estágio contagioso e plural em que ela se encontra, às vezes fica difícil voltar aos primórdios da primeira arte e localizar o vírus principal que causou tudo isso. Sabe-se apenas que o som sempre esteve lá, por todos os cantos e caminhos, se manifestando desde um simples assobio em uma caminhada até um bater de palmas nas senzalas de escravos. E talvez tenha sido de lá, das senzalas, que tenha sido brotada a semente do que hoje chamados de rap. Óbvio que naquela época não andavam nas ruas negros vestidos e respeitados como Jay-Z ou Kanye West são atualmente, mas o espírito das rimas, o espírito de transformar em palavras os mais profundos dos sentimentos, do amor ao ódio, sempre esteve lá.

Dando um salto gigante nos parágrafos que compõem a história do estilo, encontramos em negrito o nome de sir Gil Scott-Heron - pra quem não sabe, o possível único pai genuíno e identificado da arte do rapping. Proto-rap era o nome dado ao som que Scott-Heron fazia em seus primeiros lançamentos, que na sua discografia eram mesclados de um soul marcante e de spoken work, esse último talvez sendo a origem de tudo. Sua voz firme que exala experiência serviu de inspiração para os primeiros artistas e grupos de rap que surgiriam algumas décadas depois, adicionando batidas para servir de base a rimas e refrões sobre a vida nas ruas e nos guetos.

Depois de lançar um punhado de discos e ser canonizado por muitos, Scott-Heron deu uma pausa em sua carreira e voltou em 2010 com um novo álbum, dezesseis anos após lançar seu último registro. I'm New Here é um álbum curto mas de uma intensidade que já era a marca registrada de seu mestre. Lançado pela XL, já era de se esperar que a maioria das faixas tivessem ligações com a música eletrônica em alguma de suas vielas - nada que tenha atrapalhado o resultado final. Mas o assunto principal deste texto envolve outra figura que faz parte de um grupo que causou um grande alvoroço em 2009 ao lançar seu debut, um dos hypes de maior destaque na década. xx, que leva o mesmo nome da banda, evocou os lados mais sensíveis da música e os trouxe a um som íntimo, levado por uma bateria sampleada e sintetizadores frios. A guitarra e o baixo são os principais agentes responsáveis quando o som se transforma em algo mais alegre e vasto, compilando influências de outros caminhos até chegar a um ponto onde buscar referências se torna puro blasé por parte dos jornalistas.

Jamie Smith, ou Jamie xx, como ficou conhecido, foi o jovem do grupo que resolveu remodular o último lançamento de Gil Scott-Heron na íntegra a seu modo. O "remix" basicamente retirou as pistas de voz do arquivo original de Heron e as colocou numa capa eletronizada mais sensual, charmosa e smooth que as batidas secas e sintetizadores rústicos de I'm New Here. Batizado de We're New Here, o projeto seguiu a mesma linha explorada por Jamie e seus comparsas em xx: a reunião de diferentes vertentes sonoras, aqui quase que exclusivamente eletrônicas, até modular um som que faz sua compressão final sem esfumaçar demais alguns estilos que ficam claros aqui, como uma leve passagem pelo dubstep.

Um dos fatores que tornam We're New Here um disco leve e fácil de ouvir algumas vezes seguidas sem acender uma centelha de cansaço é a forma estrutural do álbum: Jamie foi esperto e pegou a mesma onda de Heron ao manter as mini introduções no disco (obviamente aqui remodeladas), que sempre quebram o gelo no momento exato onde a obra começa naturalmente a pesar. São momentos rápidos de descontração - o menor deles com 17 segundos - mas que fazem uma enorme diferença na prática. Entre esses flashes, no total quatro, nove músicas muito bem trabalhadas deslizam pelo ouvido com uma sonoridade levada algumas vezes pelo dark ambient, outras por um caminho mais experimental, e as de maior destaque pelo dubstep, que cria uma aura densa que de pouco em pouco vai deixando a bolacha mais e mais irresistível.

O primeiro sinal de que a intenção de Jamie era de fato retrabalhar completamente as faixas originais está logo na primeira canção, que manteve seu nome real. "I'm New Here", que começa com os versos "I did not become someone different/I did not want to be/But I'm new here/Will you show me around?", denuncia logo de cara a ideia por trás de todo o projeto de forma mais clara impossível. A contra-prova vem logo depois numa explosão suave de um wobble bass que mescla falas de Gil Scott e uma voz feminina, criando um novo panorama sobre a letra original.

"Running" esbanja um suingue que não aparece tão forte muitas vezes no disco. A batida firme e cheia de ritmo corre pelas diferentes facetas que aparecem durante os poucos mais de 3 minutos da música que precede "My Cloud", com uma cara mais ambient de sintetizadores fortes e esparsos se sobrepondo a todo momento. As batidas fortes voltam em "The Crutch", que apesar de inicialmente parecer uma faixa rústica e seca, vai ganhando camadas leves de vozes até se tornar completamente envolvente e atmosférica. Na sequência vem "Ur Soul And Mine", perfeita para uma boa e cheia pista de dança junto com "NY Is Killing Me", uma das melhores do disco que abusa do dubstep colocando toda a potência que a obra tem a oferecer em sua posse. Top 10 2011 já! O mesmo serve para "I'll Take Care of You", que fecha o disco no mesmo clima de festa mas com uma cara mais residente, calma e social. Se torna a perfeição com uma dose de uísque e duas pedras de gelo.

Gil Scott-Heron parece mesmo ser um cara abençoado. É o responsável pela explosão de um dos estilos musicais mais importantes de toda a música e acaba de ser reinventado por um jovem tristonho que ainda tem muitas velas para soprar. Talvez seja o início de um ciclo que se regenere de tempo em tempo, com a intenção de sempre avançar e deixar obras já dilaceradas por nossos ouvidos ainda mais interessantes e vivas. Aqui o nome remix não entra: We're New Here é um disco digno e deve ser tratado com todo o respeito. Afinal, quantas vezes na sua vida você já viu um disco de remixes no topo das listas de fim de ano?



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